sexta-feira, 26 de abril de 2013

NEWS 7: QUEM SABE UM DIA...


Família querida.
Queridos amigos.
Saudades!

Há tempos estou pensando o que escrever para vocês, mas infelizmente não tenho nada de bom para contar =(. Meus dias tem sido exaustivos, tenho trabalhado bastante e é isso. Então decidi escrever só para dar um oizinho e dizer que tudo está bem por aqui... 

As atividades na farmácia estão cada dia mais corridas porque agora estamos nos aproximando da “pic season” ou seja a temporada do fervo no hospital, rs. As chuvas ainda não começaram mas já estamos preparados para o pior... Tendas estão sendo erguidas para receber mais pacientes... Tem a tenda da malária, a da tuberculose, a das grávidas... afff parece cenário de um filme isso aqui, rs. É engraçado mas ao mesmo tempo assustador, e se você não está preparado para lidar com isso, é fácil fácil largar tudo e voltar correndo pra casa...

Já estamos atingindo nossa capacidade máxima de leitos e por dias estamos tendo que “usar” outras alas para alojar alguns pacientes. A UTI está super lotada e não tem  como trazer mais pacientes porque não tem oxigênio para todos, então eles permanecem monitorados na emergência, até folgar um leito. Os desnutridos severos também estão sendo alocados nas alas infantis... o que não é bom nem o correto porque estão tão frágeis e doentes que em contato com outras crianças doentes, podem facilmente pegar uma infecção grave e piorar... as vezes sinto que estamos sendo afogados no meio de um oceano, em meio a uma terrível tempestade... você não vê uma luz no fim do túnel (ou um helicóptero vindo te resgatar...). Todos os dias é tanto paciente grave, tantas mortes, tanta criança chorando, tantos problemas, que parece não ter fim!!! Não só parece, como não tem mesmo =( Mas estamos aqui, fazendo DE TUDO para salvar vidas. E estamos fazendo TODA a diferença.

Mês que vem começo a dar suporte para os enfermeiros dentro de cada unidade. Vou tentar ajuda-los a promover um melhor gerenciamento referente a medicamentos e correlatos em seus departamentos. Realizar o inventário semanal e auxilia-los no preparo do pedido semanal que fazem para a farmácia. Porque literalmente falando, está uma verdadeira zona, rs. É sério. Porque ninguém sabe calcular direito o consumo para saber o quanto pedir. O resultado? Pedidos de emergência todo o santo dia, vários por dia, o que atrapalha a vida de todo mundo. Principalmente dos enfermeiros que precisam sair de suas alas para pegar material na farmácia. Isso significa que passarei o mês de maio todinho nas unidades... são 12 então terei que dividir entre manhã e tarde... isso significa também que estarei acompanhando de perto os casos tão tristes que geralmente só dou uma passada pela manhã. Que eu tenha bastante força e energia para aguentar firme esse mês. Tenho certeza que não será nada fácil =(

Amanhã é comemorado o Dia da Independência de Serra Leoa. Temos ordens de não sair de casa a menos que seja super necessário (tipo hospital ou escritório), por causa de possíveis manifestações ou atentados =P. A população ainda sofre esse período pós-guerra e pra ser sincera não sei quantos anos serão necessários para que o país se recupere, desenvolva, reestruture again... nós que estamos aqui vemos os danos causados pela guerra e as consequências que a população tem enfrentado. Virão gerações ainda com traumas e muitos problemas...

Por isso coloquei um vídeo de uma música linda. Faço minha as palavras do compositor... 
Quem sabe um dia, 
chegaremos lá...

Beijo no coração. Ótima semana. Fiquem com Deus.






quinta-feira, 11 de abril de 2013

NEWS 6: E COMEÇA O TERCEIRO MÊS... =D


Oi gentemm! Tudo bem? Saudades! Faz tempo que não escrevo né? Mas tenho andado tão ocupada (e cansada) que falta achar um tempinho para parar e escrever. Mas aqui estou. E como diz o título >> meu terceiro mês está começando! Significa que só falta completar mais 10 =) hahaha SUPER otimista... bem melhor assim né. 

Mas o fato é que estou com saudades da minha família. Ai ai que fase. Ainda mais o Edu estando longe, aí sim que complica. Não é aquela saudade desesperadora de quer largar tudo e ir embora, porque estou feliz aqui e o trabalho realmente me satisfaz. É aquela saudade do almoço de domingo, de bater papo com minha irmã, ir ao shopping com minha mãe, assistir um filme com meu pai... coisas de família. Nas crianças então nem posso pensar muito. Essa semana eu falei com os dois. Meu sobrinho contando que estava com febre (aquela vozinha abatida que da vontade de pegar no colo sabe?) e minha afilhada dizendo que queria tomar o cappuccino que costumo preparar para ela e que ninguém sabe fazer igual... não é fácil. Enfim tenho que ser firme, pois essa é minha escolha. Sei que no final estarei orgulhosa por ter superado e enfrentado tudo, com a mesma sensação da vez passada, de missão cumprida. 

Só que eu estou compreendendo o seguinte. Que não sou de ferro. É gentemmmm verdade! rsrs (o maior descobrimento da história, rs)... Minhas amigas me escrevem dizendo “como você consegue fazer tudo isso”, “você é um anjo”, “uma heroína” e por aí vai... mas a verdade é bem longe disso. Sou uma pessoa comum, e também tenho meus momentos de fraqueza. Tem dias que é tão pesado ficar no hospital que dá vontade de ficar na cama no dia seguinte pra não ter que DENOVO, já no dia seguinte, ver crianças morrendo, mães chorando, problemas acontecendo... Aff, uma loucura. E por mais que eu receba todo o apoio do mundo do meu noivo ou meus pais, é só estando aqui para saber que não dá para ignorar o que acontece na sua frente todos os dias (isso que eu nem trabalho diretamente nas unidades hein)... Meu pai diz que tenho que ser um pouco mais fria, não me envolver tanto com os casos diários, que pessoas morrem no mundo todos os dias e que a vida continua... mas eu sou um ser humano né, com um coração enormeeeeee e cheio de sentimentos! Tudo bem, isso aqui é um hospital. E eu sei exatamente o que vim fazer aqui. Mas não é um hospital normal né gente. A mortalidade materno-infantil é muito alta e mesmo sabendo que estamos fazendo TODO o possível para salvar vidas, poxa vida, são crianças!!! E como mulher, tenho esse instinto maternal que é natural, ou seja, não dá pra ficar indiferente diante das situações que presencio. O que fazer quando uma mãe passa na sua frente com uma criança quase morta nos braços, às pressas, tentando chegar à unidade intensiva para coloca-la no oxigênio e um tempo depois você vê a mãe chorando a perda desse filho, isso no final do dia, 5 min antes de ir embora?  Isso aconteceu ontem comigo e sério, não precisava. Poderia ter ido embora sem ter presenciado a cena. Por outro lado me sinto egoísta por estar preocupada comigo, com o que vi, com o final do meu dia. É a coitada da mãe que está sofrendo a perda de um filho... 

Ou então hoje, eu estava esperando para falar com minha supervisora quando uma mãe com seu bebê no colo (quase que desacordado, todo molinho, bem apático) me parou para pedir sangue, que o bebê precisava receber sangue urgente e que o estoque no lab tinha se esgotado. Quase morri né. Pedi para ela ir novamente ao laboratório (e eu também fui pra saber se eu poderia doar o meu sangue), e fui informada que alguém já havido sido chamado para doar para essa criança. Esse é outro problema que enfrentamos aqui. Em média fazemos 400 transfusões de sangue por mês. Um número altíssimo, visto que após a doação o intervalo é de 3 meses para se realizar a próxima... nos meses de pico (que está começando agora com a chegada da estação das chuvas = malária) o número de transfusões/mês chega a 900. Daí que não tem da onde tirar mais sangue. Como eu digo, é só por Deus mesmo. O interessante é que eu já sabia do problema da falta de sangue, mas foi quando a mãe me parou pedindo pelo amor de Deus que o filho precisava receber sangue que vi o desespero de passar por isso. 

Coloquei-me no lugar dela. 

Se bem que eu estivesse no lugar dela eu mandaria tirar todo o sangue que fosse preciso de mim mesma. Para salvar um filho, faria qualquer coisa... Mesmo assim deixei avisado no lab que estou a disposição se precisarem de sangue =)

Então estou realmente convencida que não sou a dama de ferro, e que posso perfeitamente tirar um tempo para chorar, para ficar triste, para ficar sozinha e processar tudo isso. Só um tempo, o que pra mim se resolve em algumas horas ou pouco mais de 1 dia. Mas tem sido importante eu reconhecer e respeitar isso em mim mesma. Não quero bancar a mulher maravilha. O importante é não fazer disso um problema, ou acabar deprimida, a ponto de desistir. 

Enfim fiquem tranquilos pois já me sinto melhor. Pronta para mais um dia... =)

Queridos, no mais tudo bem =). Minha equipe está super animada com minha presença na farmácia. E é recíproco, por que eles sentem que estou contente com eles. Todos vêm desenvolvendo um excelente trabalho. É eu dar uma idéia ou propor alguma melhoria que na mesma hora eles colocam em prática. Eu montei um calendário de treinamento, com vários assuntos de interesse relacionados às atividades da farmácia e comecei ontem com o meu assistente, que é o supervisor da equipe. Foi muito legal e hoje ele já estava organizando os pontos principais para dividir com os demais. Temos muito que fazer, mas é realmente gratificante quando todos estão envolvidos e dispostos a darem o melhor de si. 

Notícia boa para o fim =). O Edu está vindo para Bo no sábado e ficará até quarta. Poucos dias, mas com certeza saberemos aproveitar cada minuto. Estou morrendo de saudades. E com ele por perto, as saudades da família vão acalmar um pouquinho.

Não tenho nada de fotos... eu sei, abandonei a máquina total. Prometo que para o próximo post haverá mais...

Beijooooooooo, tenham todos um abençoado final de semana!!!



Jantarzinho na nossa casa. Esse é pessoal com quem eu moro =). Começando pela esquerda: Fabrizia, enfermeira pediatrica, da Italia; Nathalie, parteira, da Bélgica; Caroline, enfermeira chefe, do Quênia; eu =D; Adelaide, engenheira, da Bélgica e Gian Luigi, logistico, da Italia.

 
Mae e pai pra vocês. Olha que delicia de fim de tarde tranquilo. Queria vocês aqui comigo para dividir esse momento...


 Minha equipe =)