Buenas noches meu
Brasil! Tudo bem por aí? Por aqui 1 mês de missão sendo completado hoje =) só
faltam mais 11, afff pai não chora... mãe ajuda aí =P!
Bom, eu prometi no post anterior que falaria sobre
a tal da lassa fever e aqui estou...
está enorme o texto again... para
aqueles que gostam, boa sorte! =)
A lassa fever
é uma doença hemorrágica viral. O vírus foi identificado pela primeira vez
durante uma epidemia na cidade de Lassa, na Nigéria (daí o nome)... e a doença
é endêmica em países situados a oeste da África (os mais atingidos são Nigéria,
Serra Leoa, Guiné e Libéria). Aqui em Serra Leoa o primeiro grande surto foi relatado
em 1996 quando 470 casos foram identificados e desses 110 mortes (é claro que
já deveria existir antes, mas a ajuda humanitária não estava presente)... desde
então tem-se confirmado mais e mais casos, o que não é nada bom =(. O hospital
de referência que trata os casos de lassa
fever fica em Kenema, cidade próxima daqui... então todo paciente positivo
do nosso hospital deve obrigatoriamente ser transferido para lá...
A doença é transmitida pelo rato. E devido às
condições de vida absurdamente precárias da população é uma missão praticamente
impossível erradicar o vírus aqui. Sim porque todas as casas são construídas
diretamente no chão batido (onde se dorme também), com paredes de barro e na
maioria das vezes sem janelas e portas... como não há eletricidade não preciso
dizer que ninguém possui geladeira (é claro), e nem lindos potinhos plásticos (que
facilmente compramos em qualquer loja de 1,99) para guardar e preservar o
alimento. Resultado: os ratos fazem parte da família e de sua comida =P. O fato
é que mesmo se alguém da família identifica sei lá, por exemplo, que um pão
está com a marca do dentinho do rato, ela não vai jogar o pão todo fora
(precisa comer!), mas somente o pedacinho que está roído e esse é um perigo
muito grande. O rato pode ter feito xixi ou defecado na outra parte do pão.
Outro problema é a água, que é claro que não é encanada, e que fica armazenada
dentro de latas ou outro reservatório e que se não for bem tampado, pode
facilmente ser tornar fonte de contaminação.
Ok. Também se pode transmitir a doença de pessoa
para pessoa. A pessoa já contaminada pode passar o vírus através de relações
sexuais, gotículas salivares (se espirrar ou tossir na cara de alguém e que
afete a mucosa da outra pessoa – olhos, boca, nariz), se o doente vomitar em
alguém (afff, ou seja, no rosto, porque teria que entrar em contato com a
mucosa) e também pelo sangue (nesse caso o indivíduo saudável teria que ter uma
lesão na pele para que o sangue contaminado afetasse seu organismo). Vixxeee
entenderam?
E isso significa que como trabalhamos diretamente
com pacientes graves, diariamente estamos expostos a muitas dessas
possibilidades (inclusive a do vômito, lembre que são crianças). Claro que por
trabalharmos no hospital o risco é maior, porém todos os expatriados aqui devem
ter consciência e atenção ao deixar alimento descoberto sobre a mesa ou
fogão... e não pensem que por morarmos em casas limpas e melhores estamos
livres dos ratos... volte e meia temos visitas =S
Sim mais e aí? São vários os problemas... o vírus é
semelhante ao do ebola ou seja, pegou – morreu... não achem que estou
exagerando não... as chances de cura são bem pequenas e basicamente são
efetivas quando se descobre a tempo que o indivíduo tem lassa fever... e que
aqui já aponto como sendo o primeiro problema. Só existe 1 teste no mundo capaz
de identificar se o paciente é positivo ou não e que só funciona se o paciente
estiver com a carga viral bemmmmm elevada, senão o teste dá negativo... ou seja
se o paciente apresentar febre e já for submetido ao teste, ela poderá já estar
doente mas o teste dará negativo... o protocolo manda proceder com o teste no
terceiro dia de febre alta e que não foi minimizada ou cedida por medicamentos
antipiréticos e quando o teste de malária for negativo. Problema?? As vezes o
paciente já morre nessa fase, antes de saber o que tem =(
O que acontece é que nosso hospital não tem
capacidade para assumir os casos de lassa fever (leiam o post anterior para
entender as nossas atividades aqui). Porque todos os pacientes com suspeita de
lassa precisam ficar em isolamento TOTAL até o resultado do exame (em média 24h
– 48h). Nós temos uma ala de isolamento aqui no hospital (acesso somente
vestindo aquelas roupas de astronauta sabe?) para os nossos pacientes e
funcionários, mas que ficam só o tempo de receberem o resultado do teste. Caso
positivo, são imediatamente encaminhados para o hospital em Kenema.
Temos uma ambulância só para o transporte de
pacientes lassa fever positivos. Temos um médico focal point só para cuidar desses pacientes aqui, para garantir que
os protocolos estão sendo seguidos e para estudar mais sobre essa doença, que
de certa forma é bem pouco conhecida e ainda gera muitas questões sobre
diagnóstico e tratamento.
Mas e tem tratamento??? A resposta é sim... e
aqui aponto o segundo (ou terceiro, o quarto) problema. De novo, só existe um
laboratório no mundoooooo (odeio isso!) que fabrica o medicamento para tratar a
doença e a produção (em quantidade) dessa droga é bem baixa, ou seja, não
existe tratamento para todo mundo... tem mais gente doente do que medicamento
disponível no mercado... nossa ‘que estranho’ ‘como assim’ vocês devem estar se
perguntando... bom aí entra o MAIOR problema de todos que é o acesso a esses
medicamentos e essa é uma das lutas que MSF tem com governos e laboratórios pedindo
a redução dos custos, a produção de genéricos, a quebra de patentes para que
pessoas como essas que estão morrendo aqui possam receber o melhor tratamento.
No final vou passar alguns links mostrando esse trabalho que MSF faz
em todo o mundo... para aqueles que se interessarem, não deixem de ver.
Agora pasmem, o tratamento é injetável e CADA ampola
custa 250 euros (façam as contas) sendo que cada paciente precisa de 25 doses
para se curar da doença. Ou seja, 6.250 euros (16.250,00 reais) para tratar
cada paciente lassa fever positivo na África? Eu só posso estar de brincadeira,
certo? Pois acreditem é isso aí mesmo...
Lembram que semana passada eu contei que perdemos
um de nossos motoristas (ontem teve celebração do sétimo dia), então... é muito
triste gente... nós fizemos uma reunião aqui para todos os staffs nacionais e
expatriados para esclarecer dúvidas, responder as perguntas, contar o que
aconteceu com ele e pela primeira vez senti muito por esse povo aqui ao ouvir o
médico lassa fever focal point dizer que infelizmente estamos de mãos atadas,
que o tratamento é caríssimo e que o laboratório não produz quantidade
suficiente, que nem todos podem ser tratados... ou então que o teste não é bom
o suficiente para detectar níveis baixos do vírus no sangue, que garantiria um
tratamento de sucesso caso diagnosticado bem no início...
Ai gente, sério eu chorei... porque tem muita gente morrendo e realmente estamos de mãos atadas
nesse sentido. E mesmo falando que MSF luta para que esse medicamento seja
produzido em larga escala e por um preço acessível o que isso resolve para eles??
Nada!! Para nós sim que pensamos “que lindo que existem organizações que fazem
lobby”, mas e pra eles gente que precisam do medicamento e não tem ou pior jamais poderão pagar caso tivessem acesso! A saber,
esse nosso motorista havia perdido a esposa há 2 anos da mesma doença e com 4
filhos para criar teve que colocar o menorzinho num orfanato porque não tinha como trabalhar e deixa-lo sozinho... agora que ele
faleceu as outras 3 crianças maiorzinhas estão sozinhas, e essa é a realidade
de muitos por aqui... quando a equipe de água e saneamento foi fazer
uma inspeção na casa dele, encontrou muitas fezes de rato por toda a casa,
inclusive dentro do tambor de água ‘potável’... =(
Para finalizar, saibam que nós provemos o
medicamento para os casos que são descobertos aqui em nosso hospital... para
nossos funcionários e o time de expatriados também, tratamento completo... e os pacientes que surgem de todo o país que são internados no hospital em Kenema recebem o medicamento de várias outras ONGs que apoiam esse hospital... (se tiver o suficiente para todos).
Então eu peço de novo meus queridos amigos e
família: não deixem de ajudar. Nós precisamos MUITO da doação de vocês
para que chegue até aqui esse tratamento... o mínimo para doação é de R$10,00 e
eu tenho certeza que isso não é nada visto tudo o que eu escrevi aqui hoje...
e seja um doador mensal, porque a regularidade da sua doação é mais importante
que uma doação única... então é melhor doar menos, mas sempre, do que um valor
maior, uma única vez... obrigada =))
Ai, cansei...
No mais meu final de semana foi
maravilhosooooooooo! Eu consegui liberação de ir para a capital ver o meu
amorzão =D. Fui no sábado de manhã (cheguei 12h lá) e voltei hoje na segunda de
manhã... Tivemos só um diazinho e meio para ficarmos juntos, mas valeu cada
minuto. Pude repor o ânimo, a esperança e a energia para enfrentar mais uma
semana de trabalho... acho que agora o Edu só vem pra cá no final do mês =(
No domingo nós fomos almoçar em uma das praias que
tem na capital (30 min de carro) e genteeeee é muitoooo lindooooo! Nossa, um
paraíso... parecia que estávamos de férias em outro país... as praias aqui são
realmente muito bonitas e a informação que tivemos é que no passado eram praias
bem visitadas, turísticas mesmo. Mas depois da guerra, com tudo destruído, não
houve investimento para a reestruturação dos locais... que pena.
Ahhhh e também pudemos comemorar meu artigo que
finalmente está sendo publicado na revista Parasitology Research =) e
também nosso primeiro mês de missão concluído! É povo o tempo voa!!!
As fotinhos que estou postando são desse final de
semana... espero que gostem =)
ps:
não acharam que porque o assunto de hoje foi lassa fever que eu colocaria fotos
deprimentes de pessoas doentes aqui né... por favor...
Beijo no coração. Seguem os links e algumas
fotinhos! Fiquem com Deus!
olha o sorrisão dos dois =D
tem que atravessar o riozinho para chegar no mar =)
by Edu
meu amore correndo para um mergulho, muito bom né!
felizes da vida! Obrigada meu Deus!
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