Oi família! Oi amigos =) Saudades! Como estão as
coisas por aí? Espero que todos estejam bem. Por aqui graças a Deus tudo
tranquilo, na medida do possível. Tenho me empenhado muito, e estou contente
com o trabalho e as atividades que venho desenvolvendo... parece até que faz
mais tempo que já estou aqui e isso é bom, mostra como eu me integrei e me
adaptei rapidinho ao contexto, a rotina, a nova vida que será minha por 1
ano...
Mas ainda não me adaptei com o sofrimento humano... e quiçá eu nunca me acostume ou me conforme com isso. As experiências que tenho vivido aqui tem sido intensas e bem difíceis de colocar no papel. Provável que eu não consiga expressar meus reais sentimentos de como é estar nesse lugar todos os dias. Quem sabe eu consiga traduzir em palavras parte deles, mas sem vocês aqui para entender (e ver) a situação tal como ela é já adianto: não dá.
Mas como eu sei também que vocês gostam de acompanhar essa
árdua (e linda) jornada, cá estou para partilhar minha vivência, e quem sabe,
através dela, sensibilizar outros profissionais a seguirem o mesmo caminho, em
Bo ou em qualquer outro lugar. Algum farmacêutico interessado e disposto a ser
meu substituto fevereiro do ano que vem?
Como todos sabem esse é um hospital pediátrico. Porém
que não atende crianças com simples dores de garganta ou ouvido, tosse e joelho
ralado (não desmerecendo tais pacientes)... Aqui recebemos os desnutridos, os severamente
feridos, queimados, portadores de doenças graves (e raras), mães quase mortas
que trazem nos seus ventres bebezinhos quase mortos - e mortos -. É isso todo o
santo dia: manhã, tarde, noite, madrugada.
Todas as manhas temos reunião as 8h15 para saber das
novas admissões... e todas as manhãs a capacidade de nossos leitos estão sempre
no limite, até mesmo por vezes, 2 crianças por leito (pois é). Sempre presto
atenção nos casos mais graves porque tenho ido diariamente visitar tais ‘pacientinhos’.
Visitar entre aspas, porque eu não faço nada. Só entro na unidade, paro perto
da cama e faço uma oração em silêncio pedindo para Deus amenizar o sofrimento
de cada um deles (não entrarei em detalhes, mas está sendo uma luta diária ter
essas conversas com Deus, porque a verdade é que essas crianças jamais poderiam
estar sofrendo desse jeito... mas ok, isso é entre Ele e eu).
A maioria dos pequenos que admitimos chegam em choque.
São primeiramente acolhidos no ER (emergência), estabilizados e então transferidos
para as devidas unidades: TFC (desnutridos severos), C1 (0 a 1 ano), C2 (1 a 2
anos), C3 (2 a 3 anos), C4 (3 a 4 anos), C5 (4 a 5 anos), NEONATE
(recém-nascidos não saudáveis), ICU (cuidados intensivos), e ainda DELIVERY/OT
& OBSTETRICS (não para as crianças claro mas para mulheres grávidas em
risco).
Para atender a demanda, nossa equipe conta com um
médico intensivista que fica direto no ER, 4 pediatras + 2 enfermeiras
pediátricas, 3 obstetras e todo o resto (no qual eu me incluo, rsrs). No total
somos em 30 expatriados de tudo quanto é canto desse mundo =) do Chile à Indonésia,
passando pelo Brasil, Canadá, EUA, Espanha, Alemanha, Bélgica, França,
Inglaterra, Itália, Noruega, Dinamarca, Burundi, Quênia, Paquistão e
Filipinas... daqui a pouco tudo muda, uns saem, outros vem =)
Voilá, voltando
aos pacientes em choque =(.
Como eu disse ==> a maioria. Em choque por causa da
malária grave (ou cerebral), doença que mata milhões de crianças < 5 anos na
África todos os dias (morre 1 a cada 30 segundos). TODOS OS DIAS. Todos os dias
na reunião quando é dito quantas mortes ocorreram nas últimas 24h a maioria
delas é por causa da malária.
E elas chegam aos montes.
E a estação das chuvas ainda nem começou... a previsão
é de recebermos 2.000 pacientes/mês (em média).
Há alguma dúvida se MSF deveria realmente estar aqui?!
A maioria dessas crianças não tem só malária, na
verdade é um mix de coisas... como são malnutridas o organismo não consegue se
defender sozinho e então é super fácil virem acompanhadas com algum tipo de
infecção, pneumonia, HIV, tuberculose, meningite, enfim... tudo isso + malária
= sérias complicações.
Estou aprendendo muito. Aprendendo como a equipe
procede para tratar esses pacientes em choque. O ER doctor (que foi embora ontem e hoje já chegou outra – de Nova
York! Que chique!) passou tempo comigo aqui na farmácia explicando que o acesso
é intraósseo, ou seja, com uma pistolinha especial fazem um furo no osso da
perna do paciente, e como é bem vascularizado, passam todos os medicamentos por
ali. Fantástico não? Porque é muito difícil ter acesso a veia de um pacientinho
desses e é preciso agir rápido quando eles chegam... eu não sabia disso e foi a
primeira vez que vi esse instrumento. Para mim é como estar numa escola.
Aprendendo sempre. Amo isso.
Já contei em algum dos posts anteriores que presenciei
uma mãe passar aqui pela farmácia com seu filho desnutrido, e que me deixou bem
sensibilizada, lembram? Pois é, achei que isso seria raro de acontecer mas não
é. Como o hospital é aberto, para ir de uma unidade para outra as mães (com
suas crianças) tem que atravessar os pátios (passando pela farmácia que é bem
central) para chegar a um determinado lugar. Tirei algumas fotos, depois vocês
vão ver. Ou seja, diariamente vejo os pequenos com todos os tipos de curativos
e lesões que vocês podem imaginar, com o acesso fixado na cabeça, e vários
deles se parecendo com uma pilha de ossos sendo carregados nos braços de suas
mães... Um desses estava com a cabecinha encostada no ombro da mãe e o diâmetro
dos bracinhos e pernas era o mesmo de meu dedo indicador (não era um bebê e sim
uma criança de uns 4 anos).
Eu chorei, é claro.
Eu tenho dois sobrinhos pequenos que são a minha vida
e quando penso neles vejo a abundância de bênçãos derramadas sobre minha
família. Irmã, nunca deixe de agradecer um dia sequer pela saúde dessas joias
que você tem em casa. É o bem mais precioso que se pode ter. Saúde.
Posso ficar aqui descrevendo casos e casos, pois sou
capaz de lembrar-me de cada um que cruza o meu caminho...
Por fim, na segunda feira, recebemos um adolescente de
14 anos com queimaduras de último grau no corpo todo. É ele quem eu tenho
visitado todos os dias e que rezo tanto para que seu sofrimento seja
aliviado... A história desse menino é assim: a casa onde morava pegou fogo
(provável que estava cozinhando, como sabem o “fogão” é no chão, feito de
gravetos e pedras onde então apoiam a panela em cima). Seus quatro irmãozinhos,
pelo o que entendi, estavam dormindo e durante o incêndio ele os tirou de lá um
por um. Quando voltou para tentar salvar alguns poucos pertences, o teto
desabou sobre ele e foi quando as chamas o consumiram... Agora esse super-herói
está aqui. Com os pés, pernas, mãos, braços, costas, peito, barriga e rosto
totalmente queimados. Não é nem mesmo possível reconhecer sua face. Ele está
sofrendo muito. Ele só tem 14 anos.
Para trocar as ataduras, drenar e remover a pele ele precisa
ser sedado... só assim é possível... a alimentação se dá através de uma sonda
que entra pelo nariz e vai até seu intestino, o que não deve ser nada agradável...
não há possibilidade de transferi-lo para a capital (ele não suportaria) e não
há boas perspectivas futuras... é realmente rezar para que ele não pegue uma
infecção.
Eu vou parar por aqui porque não consigo mais escrever
sobre ele... só peço que Deus o zele durante dia e noite e esteja ao seu lado,
ou que leve consigo um anjo a mais para o céu. Eu acredito em anjos!
O interessante é que nessa última semana tenho lido bastante a bíblia, mais especificamente o Livro de Jó, que fala justamente sobre o sofrimento humano. No final Jó reconhece que os seres humanos não podem compreender tudo, nem explicar bem a razão por que às vezes também os inocentes sofrem... eu, longe de ser como Jó, não compreendo é nada =/
O interessante é que nessa última semana tenho lido bastante a bíblia, mais especificamente o Livro de Jó, que fala justamente sobre o sofrimento humano. No final Jó reconhece que os seres humanos não podem compreender tudo, nem explicar bem a razão por que às vezes também os inocentes sofrem... eu, longe de ser como Jó, não compreendo é nada =/
Queridos, sei que o clima de hoje está bem pesado, me
desculpem. Mas eu trabalho para uma organização de ajuda humanitária. Se quiser
flores, definitivamente, aqui não é o lugar... Se essa não fosse a minha vida
provavelmente o blog se chamaria “frannopaísdasmaravilhas” e eu estaria
escrevendo sobre, maybe, flores?!? =P
De fotos eu tirei algumas do hospital para mostrar
para vocês. Vocês vão ver uma construção que está acontecendo do outro lado da
rua, na frente do hospital. É nosso projeto de reabilitação. Serão construídas novas
unidades, não para aumentar a capacidade dos leitos, mas para melhorar o fluxo
de trabalho interno... cada coisa em seu lugar... e também para minimizar o
risco de infecções... terá uma farmácia grandeeeee novaaaaaa =))) espero estar
aqui para deixar ela lindaaaaa!!! Fiz questão de tirar essa foto que mostra o
primeiro muro sendo construído, para depois mostrar para vocês tudo pronto.
Certeza que irão adorar! Também umas fotinhos da horta que temos em casa, com vários
tomates e outros vegetais =) e de uns passarinhos lindosssss que eu simplesmente
amoooo ficar olhando para eles... pai essa é para você tentar descobrir que
passarinho que é. Você é o mais entendido no assunto que conheço...
Graças a Deus o meu amor está vindo no sábado para cá,
e ficará 10 dias dessa vez, cobrindo as férias do supply do projeto (o Edu é
supply da coordenação). Estou precisando muitooooo dele aqui comigo e sei que
com ele por perto tudo vai melhorar.
Um beijo no coração de vocês. Mantenham a fé e mandem
sempre muita energia positiva para cá. Até a próxima.
Essa é a farmácia =)
Fornecimento de água para o hospital
Lassa fever isolation
Uma de nossas ambulâncias
Assim são todas as unidades que expliquei. Essa é a C2.
Entre unidades
Olha nossa horta familia =) que tomates lindos!!
Também tem abacaxi, pepino, cenoura e varios tempeirinhos =)
Pra você pai... olha que lindo!
E essa é a familia completa que sempre esta aqui em casa...
Paz e amor galeraaaaaa!!! FUI!!!







Franzoca amada...Que Deus te de forca todos os dias pra vc continuar devidindo toda esse amor que voce tem dentro de vc amiga! Tenho muito orgulho de ti!! Beijo grande..te amo ;) Vicky.
ResponderExcluirOi amiga querida! Obrigada =)
ExcluirSaudadonas enorme de você. Mas o importante é que mesmo estando longe podemos sentir o carinho que temos uma pela outra. Essa amizade não tem fronteiras! =) Te amo.
Parabéns pelo trabalho e pela disponibilidade! É lamentável o abismo entre realidades, a precariedade de tudo, o sofrimento. É preciso muita confiança em Deus e indispensavelmente também no homem, na luta e no trabalho árduo pela dignidade, pelos direitos de viver e não só existir, de viver humanamente... Parabéns!
ResponderExcluirOi Bruno. Que bom que está acompanhando o blog! Obrigada pelas palavras.
ExcluirFran, "a disposição de si é um dom. Deus nos entrega a nós mesmos o tempo todo. É presente que tem o poder de nos encantar pela vida inteira. Presente imenso que requer calma no desembrulho. Vamos aos poucos, tomando posse, retirando lacres, descobrindo detalhes. Tornar-se pessoa é aventura constante de busca, e o resultado dessa busca é a disposição de si."
ResponderExcluirTenho certeza de que o amor pelo seu próximo te dará a força para cada dia... Só o amor explica de onde vem forças que às vezes desconhecemos dentro de nós mesmas.
Boa sorte! Bom trabalho! Bjs, Dani.
Dani querida, que linda vc! Eh bem verdade, esse amor supera qualquer dificuldade...
ExcluirBeijo no coração =)
Amiga, força sobrenatural a tua!!!
ResponderExcluirDesmoronei só de ler, não sei se seria capaz de vivênciar tudo isso!!!
Com esses relatos a gente se dá conta de quão afortunados somos por termos tido todo suporte, saúde, estrutura e condições de sermos oq somos!!!
De verdade vc é um exemplo!!! Esses peqnos tem mta sorte por pessoas como vc e o Edu existirem!!
Bjosss e orgulho sempre!! :)
Dani lindonaaaaaa, obrigada por sempre estar presente mesmo tão longe... fico super feliz por saber que repartindo minha vida posso somar algo na vida das pessoas que são tão importantes para mim, como você =)
ExcluirFica com Deus, saudades!